Canetas emagrecedoras podem chegar ao SUS e ampliar tratamento da obesidade em Vitória da Conquista
Ministério da Saúde estima investimento de R$ 1,5 bilhão por ano para incorporar medicamentos
16:19 Por Iasmin Oliveira Jornal Conquista
Compartilhe esta notícia
As chamadas canetas emagrecedoras podem passar a ser oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na última quinta-feira (24), o Ministério da Saúde protocolou na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), órgão responsável por avaliar a incorporação de novas tecnologias à rede pública, um pedido para analisar a inclusão de medicamentos à base de semaglutida e liraglutida no tratamento de pacientes com obesidade.
A pasta estima que seriam necessários cerca de R$ 1,5 bilhão por ano para uma eventual incorporação dos medicamentos ao SUS. A proposta ainda está em fase de avaliação e não significa que os medicamentos já estejam disponíveis na rede pública.
A discussão também tem reflexos na Bahia, que já conta com uma estrutura estadual especializada no atendimento de pessoas com obesidade. Em Vitória da Conquista, o tratamento da obesidade pela rede pública de saúde também ganhou uma estrutura específica nos últimos anos.
Em 2023, o município passou a oferecer cirurgia bariátrica pelo SUS, após a habilitação da Santa Casa de Misericórdia pelo Ministério da Saúde. A primeira cirurgia foi realizada em fevereiro daquele ano.
Além do tratamento especializado, o município vem ampliando a preparação das equipes que atuam na porta de entrada do SUS. Em agosto deste ano, cerca de 40 profissionais da Atenção Primária à Saúde participaram de uma formação sobre o manejo da obesidade.
A atividade foi realizada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e discutiu estratégias de cuidado, abordagem coletiva e atendimento.
A formação também abordou questões relacionadas à gordofobia e à necessidade de qualificar o atendimento oferecido às pessoas com obesidade. A proposta é que os conhecimentos sejam incorporados ao trabalho cotidiano das equipes de saúde do município.
De acordo com a pesquisadora e nutricionista da UFMG, Maria Cecília Carvalho, o acompanhamento na Atenção Primária é importante porque o tratamento da obesidade não se limita à cirurgia ou ao uso de medicamentos.
“Claro que o setor de saúde sozinho não dá conta dessas questões. São muitas questões de acesso aos alimentos, atividade física, rotinas de trabalho transbordam, extrapolam a capacidade da saúde. Enquanto profissionais e agentes de educação e saúde, temos esse papel muito importante de qualificar o cuidado que é ofertado em busca de resultados que sejam mais favoráveis para a saúde, para a qualidade de vida das pessoas”, disse.
Dessa forma, a linha de cuidado envolve mudanças de hábitos, acompanhamento nutricional, atividade física, tratamento de doenças associadas e, em casos específicos, procedimentos de maior complexidade.
Preços das canetas emagrecedoras caíram
A possível incorporação dos medicamentos ocorre depois de uma mudança no mercado brasileiro. Segundo o Ministério da Saúde, os preços das canetas emagrecedoras caíram cerca de 70% em menos de um ano com o aumento da concorrência e a entrada de novos produtos.
De acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), citados pelo Ministério, o número de pessoas que utilizam esses medicamentos passou de aproximadamente 400 mil para mais de 750 mil por mês.
A ampliação da oferta ocorreu após ações do governo, como a decisão de barrar a tentativa de prorrogação da patente, o incentivo à produção nacional e um chamamento, feito com a Anvisa, para que fabricantes registrassem novos produtos no país.
Segundo o Ministério, 16 novos produtos, entre genéricos e similares, foram registrados somente em 2026, e pelo menos quatro deles são produzidos no Brasil.
Com a redução dos preços no mercado e a possibilidade de compras em grande escala, com produção local, o ministro Alexandre Padilha projeta que o SUS poderia obter reduções de 80% a 90% em relação aos valores atuais.
Tratamento deve ser combinado com outras ações
Ao defender a proposta, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que os medicamentos não devem ser tratados como uma solução estética, mas como uma ferramenta dentro de uma estratégia mais ampla de cuidado da obesidade.
Segundo o ministro, o foco é a saúde da população mais pobre, que depende exclusivamente do SUS e é mais afetada pela obesidade e por suas consequências, como doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
“Nosso foco não é a estética. Nosso foco é a saúde das pessoas, de todas as pessoas mais pobres, que, por conta da obesidade, têm um risco maior de ter doença cardiovascular, precisar fazer uma cirurgia bariátrica, ficar internadas por conta da cirurgia bariátrica e ter ocorrência por conta disso”, disse.
A orientação também está alinhada às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que defende o uso das terapias baseadas em GLP-1 associado a medidas como alimentação saudável, atividade física e outras ações de saúde pública.
O ministro Alexandre Padilha também argumentou que a incorporação pode reduzir o número de cirurgias bariátricas e de internações por doenças cardiovasculares e por recidiva de câncer, o que teria impacto nos custos do sistema.
Ele ressaltou ainda que a Conitec é uma comissão independente, que vai analisar as evidências científicas sobre o uso dos medicamentos. “O Ministério da Saúde solicitou à comissão, que é uma comissão independente, para que analise tudo aquilo que tiver evidência científica de que usar essa medicação vai ter um impacto positivo para a saúde”, afirmou.